O que é o refluxo que não melhora?

É o quadro em que a azia ou a regurgitação continuam apesar de oito a doze semanas de tratamento com inibidor de bomba de prótons, o grupo do omeprazol, do pantoprazol e do esomeprazol, em dose adequada. Não é raro: parte importante de quem usa esses remédios relata alívio incompleto.

O ponto que muda tudo é este: entre essas pessoas, a minoria ainda tem refluxo ácido de verdade. Na maioria, o sintoma vem de outro mecanismo, e insistir em aumentar a dose não resolve.

Antes de tudo: o remédio está sendo tomado do jeito certo?

Essa é a causa corrigível mais comum e a mais ignorada. O inibidor de bomba de prótons precisa ser tomado em jejum, de 30 a 60 minutos antes da primeira refeição, porque ele age sobre as bombas de ácido que são ativadas pela comida. Tomado junto com a refeição, depois dela ou na hora de dormir, o efeito cai bastante.

Some-se a isso o uso irregular, interromper assim que melhora e recomeçar depois. Antes de pensar em exame ou em troca de medicamento, vale revisar esses dois pontos com o médico.

Se não é ácido, o que pode ser?

  • pirose funcional: queimação sem refluxo ácido anormal e sem relação entre o sintoma e os episódios de refluxo
  • hipersensibilidade ao refluxo: o refluxo é normal em quantidade, mas o esôfago reage de forma exagerada a ele
  • esofagite eosinofílica: inflamação de origem alérgica, que costuma cursar com dificuldade para engolir e entalos
  • acalasia e outros distúrbios da motilidade do esôfago, que imitam refluxo
  • refluxo não ácido: o conteúdo sobe, mas sem acidez, e por isso não responde ao remédio que corta o ácido
  • esvaziamento lento do estômago, a considerar quando há náusea, empachamento e saciedade precoce

Pirose funcional e hipersensibilidade respondem por boa parte dos casos. Receber esse diagnóstico não significa que o sintoma seja inventado: significa que o problema está na sensibilidade do esôfago, e não na quantidade de ácido — o que muda o tratamento por completo.

Como se investiga?

  • endoscopia digestiva alta com biópsias: avalia o esôfago e o estômago e afasta a esofagite eosinofílica e outras lesões
  • pHmetria com impedância: mede durante 24 horas quantos episódios de refluxo acontecem, se são ácidos ou não e se eles coincidem com os sintomas
  • manometria de alta resolução: avalia a contração do esôfago e afasta a acalasia

A escolha e o momento de cada exame dependem de o refluxo já ter sido comprovado antes ou não, e se o estudo será feito com ou sem o medicamento em uso. Veja como é o preparo da endoscopia e o que significam os termos do laudo.

Quais são os tratamentos?

  • ajustar horário, dose e regularidade do medicamento atual
  • considerar outra classe de bloqueador da acidez em casos selecionados
  • neuromoduladores em dose baixa, que reduzem a sensibilidade do esôfago na pirose funcional e na hipersensibilidade
  • medidas de rotina: perda de peso quando há excesso, evitar deitar logo após comer, elevar a cabeceira e reduzir álcool e tabaco
  • cirurgia antirrefluxo, para casos específicos

Sobre a cirurgia, vale a precisão: ela é indicada para quem tem refluxo comprovado em exame, principalmente quando a regurgitação é o sintoma dominante, quando há esofagite grave ou hérnia de hiato volumosa. Quem tem pirose funcional não se beneficia de operar, porque nesses casos não existe refluxo patológico para corrigir.

O que não pode esperar

Dificuldade ou dor para engolir, entalos, perda de peso sem explicação, vômitos persistentes, anemia e fezes escuras são sinais de alerta e pedem avaliação sem demora. E dor forte no peito com falta de ar, suor frio ou dor irradiando para o braço ou a mandíbula pode não ser refluxo: é caso de urgência.

Resumindo: refluxo que não melhora raramente é falta de remédio. Quase sempre é falta de diagnóstico.

Conhecer a endoscopia digestiva alta

Próximo passo

Se este assunto tem a ver com o que você está sentindo, veja como é o atendimento:

Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação médica individual.